Envelhecer bem

Geriatra afirma que melhor maneira de enfrentar a passagem do tempo é aliar-se à ela.


A eterna juventude parece ser o grande objeto de desejo da sociedade contemporânea. Estudiosos do comportamento chegam a arriscar que, no Século XXI, ser jovem será mais importante que ser rico. Contudo, não deixamos de envelhecer um único segundo de nossas vidas, afirma o geriatra Renato Maia Guimarães, uma das principais referências nacionais na área.

Chefe do Centro de Medicina do Idoso do Hospital Universitário de Brasília, formador de inúmeros especialistas, Dr. Renato assume, em junho, a presidência da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria, sociedade que congrega 50 mil profissionais em 63 países. Também em 2005, implementará a primeira UTI Geriátrica da região Centro-Oeste, a convite do Hospital Brasília.

Nesta entrevista, ele derruba mitos e constrói pontes que conduzem a uma melhor compreensão do envelhecer no Brasil e do que realmente é necessário para viver muito e bem.



Antes de tudo, há uma pergunta que não quer calar: o Brasil ainda é um país jovem?

Não. O Brasil é um dos países do mundo que envelhece mais rapidamente. Tratar o País como sendo jovem é um grande equívoco. A cada dia temos um decréscimo grande da natalidade e, por outro lado, um envelhecimento populacional rápido. Por isso, as instituições brasileiras - nas mais diversas áreas, particularmente na saúde - têm de começar a se adaptar ao novo perfil do País.

Em números, como se traduz o novo perfil?

No Brasil, aproximadamente 8% da população têm mais de 60 anos, o que corresponde a cerca de 16 milhões de pessoas. Em termos absolutos esse valor é considerado alto.

Na prática, quer dizer que os brasileiros estão vivendo mais?

A expectativa de vida para as mulheres já ultrapassou 75 anos de vida e para os homens está próxima dos 70. Vale lembrar que este dado é para o Brasil como um todo, de Porto Alegre a Porto Velho. Em Brasília, a expectativa aproxima-se de 80 anos para as mulheres e 75 para os homens, graças à baixa mortalidade infantil e à infra-estrutura local. Até os demógrafos se surpreendem com esses dados, pois estamos caminhando em direção à realidade européia.

É verdade ou mito que abandonamos nossos idosos?

Em minha experiência de 30 anos, é evidente que a família brasileira cuida bem dos seus idosos. Em termos gerais, ela não abandona, não negligencia os que descuidam são exceções. No âmbito do Estado, contamos com uma legislação atualizada, mas por vezes de difícil implementação em sua totalidade. O Estatuto do Idoso estabelece que todos têm direito a medicamentos gratuitos para doenças crônicas - a perspectiva de que isso se cumpra é remota.

Quando realmente começa a chamada Terceira Idade?

Terceira Idade é um termo absolutamente sem significado, não podemos comparar um homem de 60 com outro de 90, afirmando que ambos estão na terceira idade. Esse termo só faria sentido se fossem criadas a Quarta e a Quinta Idades. Do ponto de vista demográfico, considera-se que uma pessoa é idosa a partir dos 60 anos. Mas, os direitos estabelecidos só estão acessíveis a partir dos 65 anos.

Há uma certa confusão em relação ao papel do geriatra. Afinal, o que faz de fato esse especialista?

O geriatra é um especialista que adota uma abordagem biopsicossocial, ou seja, observa necessidades físicas, psicológicas e sociais do paciente, que é o idoso. Orienta sobre o envelhecer com saúde, a partir da adoção de medidas preventivas. Embora falemos em idoso, não há uma idade certa para buscar o profissional: a pessoa deve procurá-lo caso julgue que algo esteja interferindo em seu bem-estar e que tal aspecto possa estar relacionado ao seu tempo de vida. Isso geralmente ocorre depois de uma certa idade, mas se aos 50 anos o indivíduo se sentir incomodado deve contar com a assistência de um geriatra.

O geriatra tem acesso ao tão desejado elixir da juventude?

Desconfie daqueles que prometem rejuvenescimento, porque o rejuvenescimento é impossível. Nem mesmo durante um único segundo é possível deixar de envelhecer.

Mas envelhecer bem é uma possibilidade?

Fundamentalmente, chega à velhice bem quem vive bem. A pessoa que vive mal, não poderá culpar a velhice pela baixa qualidade de vida. Para viver muito e bem, em primeiro lugar é necessário dar sentido à própria existência. Outro aspecto fundamental consiste em adotar uma conduta preventiva em relação aos fatores que limitam o viver. É sempre bom destacar que a maior parte das incapacidades vivenciadas na velhice foram construídas ao longo de 20 anos. Quem fuma, por exemplo, está se candidatando a uma incapacidade respiratória.


De alguns anos para cá, a solidão tem sido considerada a grande vilã para a longevidade.

A pessoa que tem amigos, que compartilha alegrias e tristezas, envelhece melhor do que aquela que adota um estilo de vida adequado, mas vive só. Chegar à velhice rico e solitário revelou-se um péssimo negócio. Além de poupança e previdência privada, é imprescindível investir nas relações.

Qual é a grande estratégia para enfrentar a inexorável passagem do tempo?

Todas as pesquisas apontam a atividade física como a grande estratégia para o bem-estar humano. Toda forma de exercício é boa, desde que avaliadas e observadas as condições de cada pessoa. Caminhada e atividades na água são extraordinários. A musculação merece atenção especial: ela traz importantes benefícios orgânicos para o idoso, como a prevenção da osteoporose, o aumento da massa muscular e a significativa melhoria da locomoção.

Chegaremos, algum dia, a vencer os sinais do tempo?

Envelhecer é algo que deve ser encarado com naturalidade, pois envelhece quem não morre jovem. Envelhecer bem é aliar-se à passagem do tempo, tirando dela tudo que tem de melhor a oferecer: experiência, maturidade, sabedoria.

Fonte: Carla Furtado e Taiana Santos - jornalistas da área de saúde. Integram a Agência Athena.




430 - 11/04/2005
Álvaro Pozzetti

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